Será possível recriar a mente humana?

Este blog surgiu originalmente para falar de Weblosofia com desenvolvimento web, mas nunca tive a audácia de explorar o conceito principal deste neologismo. Transceder a computação com a web e ir para a inteligência artificial e a psíque humana é fazer da computação uma filosofia. Não estou falando no aspecto religioso. O objetivo aqui é explorar o lado “computacional” da mente e tentando ver até onde este lado computacional termina e onde começa a consciência puramente agnóstica de um processo físico e matemático. Existe inegavelmente a força do pensamento que sentimos, imaginamos e que ainda é um mistério para a ciência no que diz respeito da relação do cérebro como puramente uma máquina.

Um bom começo seria falar sobre a relação da mente humana com o computador para entender melhor até onde vai a inteligência computacional e até onde vai o que nos torna humanos. Isto é a própria definição de weblosofia, pois o computador de uma forma geral adquiriu um sistema de informação em rede e com ele podemos ter uma interpretação filosófica por conta desta rede complexa que se formou que é a Web. Há quem diga que a internet poderá adquirir uma “autoconsciência”, e se você for parar para pensar, ela está se tornando uma rede de informação independente, pois cada vez mais fica nebuloso dizer de onde a informação vem, toma vida e vira “meme” como um organismo vivo.

Depois de ler bastante a respeito e me aprofundar em dois livros, o primeiro How to recreate human mind, de Ray Kurzweil e Jung Map of the Soul, a introduction, de Murray Stein, que estão em lados opostos em termos de filosofias pude compreender melhor o que nos separa da máquina cérebro. De um lado a matemática e do outro a psíque humana.

No fim das contas, não devemos ver o cérebro como máquina e a mente “pura” como excludentes e sim complementares, pois a física se limita a descrever o mundo físico, sem considerar a consciência, algo intangível e que fez com que Jung criasse uma teoria da mente humana usando a própria física e biologia como analogia para descrever a dinâmica da mente e até a sua própria energia. De fato, se parar para pensamos, consequentemente gastamos energia de alguma forma. E de onde ela vêm? Sabemos que por processos químicos e reações entre neurônios somos uma máquina que também gera eletricidade. No entanto, temos que considerar a energia que nos move já prescrito pela física, mas além disto, temos uma energia de pensamento interno, do eu(ego) que imagina e cria uma realidade paralela através de sonhos e símbolos e do próprio pensamento que muitas vezes foge nosso controle. Este lado “negro” da força, a física ainda tenta compreender e gerou resquícios para que a física quântica tivesse vertentes não físicas, pois qualquer sistema físico necessita de um observador para qualquer medição e isto gera o princípio da incerteza, sendo assim o mundo que vemos é gerado pela nossa perspectiva.

Uma profunda relação com o assunto está no filme Ela(Her) com Joaquin Phoenix, que aliás, é um excelente filme que pode ilustrar bastante onde queremos chegar com a inteligência artificial.

Filme Her, com Joaquin Phoenix

Filme Her, com Joaquin Phoenix, uma ficção científica artística, onde explora a inteligência artifical e a consciência artifical.

No filme existe um sistema operacional em que reside uma consciência artificial, deixando a cargo do SO entender tudo que lhe é passado e com sua capacidade de processamento, consegue pensar até mais rápido e ter acesso a diversas informações e banco de dados. Bem, inevitavelmente é onde queremos chegar, pois existe uma forma proposta de comprovar a inteligência de uma máquina:

Teste de Touring

O Teste de Turing testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste. No exemplo ilustrativo original, um julgador humano entra em uma conversa, em linguagem natural, com outro humano e uma máquina projetada para produzir respostas indistinguíveis de outro ser humano. Todos os participantes estão separados um dos outros. Se o juíz não for capaz de distinguir com segurança a máquina do humano, diz-se que a máquina passou no teste. O teste não verifica a capacidade de dar respostas corretas para as perguntas; mas sim o quão próximas as respostas são das respostas dados por um ser humano típico. A conversa é restrita a um canal de texto, como um teclado e uma tela para que o resultado não dependa da capacidade da máquina de renderizar áudio

O sistema operacional do filme Ela passaria facilmente neste teste, então realmente se conseguimos manter um diálogo imprevisível com a máquina, ela pode ser considerada inteligente, já que pode agir de forma independente, aprender e ser imprevisível como a capacidade de tomar decisões.

O que seria ser imprevisível?

O ser humano tem uma capacidade singular de não predizer a uma regra matemática. A mente não é aleatória. Qualquer algoritmo no paradigma atual de programação e inteligência artificial iriam depender de decisões randômicas. Para entender melhor, considere uma situação simples do cotidiano:

Estou no banho e há uma caixa de shampoo vazia no chão, eu então simplesmente ignoro e continuo meu banho. Em um outro momento, semanas depois, vou tomar novamente o banho de novo e piso sem querer na mesma caixa de Shampoo, e tenho uma reação instintiva de defesa até meu cérebro tomar consciência da lembrança de que aquela foi uma caixa de shampoo que eu havia ignorado semanas atrás. Tudo isto pode ser programado, reações de memória e instinto, que são reações de causa e consequência. Isto é lei física. Então o “ser computacional” reagiria a um estímulo (pisar no shampoo), acessar a memória e lembrar que ele estava lá, e assim não há necessidade de se tomar o susto e imaginar que seja outra coisa. E o que seria imaginar outra coisa?

Imaginar outra coisa poderia ser baseado em todas nossas experiências ou até um trauma de infância, caso, por exemplo, eu já tenha sido mordido por uma cobra, iria me remeter a este trauma e assim o susto poderia ser maior. Mas eu estou aqui escrevendo a respeito de um fato mundano, refletir sobre o que aconteceu e no momento, mesmo o cérebro acessando a memória como uma máquina, existe neste meio tempo o imprevisível do pensamento que não segue nenhuma formulação ou algoritmo da forma no qual conhecemos.

Cada pessoa pode reagir de um jeito baseado no que ela aprendeu. Neste simples caso, não houve necessidade da mente ser acionada tão diretamente, pois foram reações que poderiam ser vivenciada também por um animal. Na verdade, o animal vê um símbolo como verdadeiro, então assustar um gato com a figura de um cachorro medonho, para o bicho é realmente o próprio animal. Nós humanos, assustaríamos por uma fração de segundos, pois nosso cérebro teria um impacto com o símbolo, mesmo não sendo real até nosso racional questionar que aquilo foi só um susto.

Outro fato curioso que pode ilustrar a separação da mente e cérebro é o ato de dirigir. Quando estamos dirigindo, sempre temos a pessoa que está dirigindo e uma pessoa que está pensando em outras coisas enquanto dirige, e até canta uma música. Se eu conheço bem a estrada, menos preciso da mente para concentração e passo a ter mais liberdade de pensamento.

Explorando a liberdade de pensamento ao extremo, não temos dependência das nossas funções motoras e assim chegamos ao fenômeno natural de todo ser humano: o sonho. O ato de sonhar é nossa mente neste contexto de liberdade, mas ao mesmo tempo estamos preso a uma sequência de símbolos e situações, oras parecem aleatórias, oras tem um sentido muitas vezes pregonitivos e transcendentais. Mas na maioria das situações, nem temos controle dos sonhos. Somos alguém que participa, está lá, mas as figuras fogem nosso controle. Em outras situações, temos o sonho lúcido, em que desta vez temos controle dos nossos sonhos em um ambiente de total desprendimento das funções motoras e vivemos uma realidade individual.

Sendo assim, se pegar outro acontecimento que envolve mais o modelo mental, como uma decisão, temos algo ainda mais intangível e até parece que temos um outro ser que decide pela gente. Um exemplo disto é quando nos arrependemos de uma decisão. Ilustrando com outra situação:

Quando estava no aeroporto fui comprar um salgado antes do embarque. Eu tinha duas escolhas, escolhi uma que não gostei e pensei em voltar. Lembrei de que a escolha que fiz já não era a melhor em outra ocasião, pois este mesmo salgado sempre me fazia mal, mas mesmo assim eu o fiz: comi o salgado que não gostava. Apesar da memória e as experiências estarem envolvidas neste aspecto, no fim das contas o racional pode não prevalecer e tomar decisões que foge todos os aspectos lógicos. É nossa chance de mudar o que fazemos a todo momento, independente da nossa máquina. Ela é apenas insumo para decisões. Pessoas mais conservadoras tendem a seguir mais o que a máquina passa, mas outras podem sempre negar o “lógico”. Sempre temos essa chance.

Nossa capacidade de processamento no cérebro é muito mais complexa do que imaginamos, e não basta apenas ter um processamento computacional equivalente, pois mesmo se tivermos toda capacidade de memória e velocidade em termos de máquina, ainda sim não é suficiente para conseguir reproduzir de forma eficaz o funcionamento do ser humano. É algo que não só estamos engatinhando, como também parece intangível mesmo com o avanço tecnológico.

Em contrapartida, quando o poderoso computador da IBM conseguiu vencer o Kasparov no xadrez, ele afirmou que a máquina parecia um ser humano na sua genialidade dos movimentos. Sendo assim, posso estar enganado e tudo não basta de pegadinhas do nosso cérebro e seu funcionamento poderá chegar ao que foi descrito no filme com Joaquin Phoenix e muitos outros com a possibilidade da Inteligência artifical em um nível de consciência.

Mas é exatamente neste ponto que chegamos no que difere a máquina mais potente do futuro distante: o significado. A declaração do mestre do xadrez mostra que a máquina pode parecer inteligente ou não, basta o significado que ele dá para isto. A gente tem fé, sentimentos, amamos e outras coisas que são significados que damos a coisas materiais e a pessoas por isto, tanto pessoas de verdade, como pessoas inanimadas(imagens e bonecos, por exemplo). Este significado é o berço da consciência e nos faz correr pelo imprevisível, simplesmente por que acreditamos, e no fim por que ele tem um significado para gente, muitas vezes intangíveis a outros, ou até existe significados em comum que move milhões de pessoas pelo mesmo objetivo. Como reproduzir em uma máquina este aspecto de forma independente, pois sempre terá a necessidade do homem de programar como o computador precisa funcionar. Dar o significado em algo inanimado é o espírito da coisa, literalmente.

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